Archive for the 'Port Elizabeth' Category

Let me feel you moving like they do in Babylon

Nomhle Qambata, 27 anos, zulu. Bailarina. Abandonou a universidade por falta de dinheiro

Nomhle Qambata, 27 anos, zulu. Bailarina. Abandonou a universidade por falta de dinheiro

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Volta ao Soweto em bicicleta

21 de Julho

12h – É um restaurante, mas parece um barco encalhado na praia. Parece um barco encalhado na praia, mas é um edifício construído de propósito para ser restaurante. É o “The Upper’s Deck”, no uShaka Marine World em Durban. Os tubarões rondam as mesas, mas ficam atrás do vidro.

14h – Se mudassem o nome de Portugal para CristianoRonaldoLand, por aqui ninguém dava conta.

22 de Julho

Artesanato à venda na Govan Mbeki Street, em Port Elizabeth

11h30 – Na Govan Mbeki Street, bem no centro de Port Elizabeth. Digam-lhe olá, e ele conta-vos a vida em português. Digam-lhe hallo e ele conta-vos em alemão que é senegalês. Vende artesanato africano, em inglês. Todos os dias. Das 9h às 17h. Ou menos.

15h – Port Elizabeth. Acabou o bom tempo. Se não é um dilúvio vindo dos céus, anda lá perto.
 20h – Se a ASAE entrasse na Jeya’s Jazz Corner Tavern, fechava-o imediatamente. A ASAE não gosta do que é bom.

 23 de Julho

15h – Na recepção do hotel. “Ir à cidade? Sozinho? Eu não recomendo, sir”. Porquê? “Questões de segurança, sir. De manhã, tudo bem, é seguro. Mas de tarde é perigoso”. Qual a diferença entre manhã e tarde? “Blá, blá, blá…” O recepcionista é branco. O que não é nem bom nem mau. O problema é que é um branco alarmista, como se viria a provar.

19h25 – Noite de dérbi do Soweto. A polícia de Port Elizabeth montou o dispositivo mais absurdo da história da Humanidade. Os passageiros são obrigados a sair dos carros, ao passo que os carros são obrigados a subir uma rampa, para poderem ser revistados por baixo. O problema é que as rampas têm inclinação a mais. Vai ser uma noite em cheio para os bate-chapas e pintores das oficinas de automóveis.

Revisão de segurança em redor do estádio Nelson Mandela

24 de Julho

6h30 – Alvorada e regresso à casa de partida, Joanesburgo.

7h40 – No aeroporto de Port Elizabeth. “One espresso, single, no sugar, please.”

8h00 – Trazem-me um capuccino a ferver.

11h00 – Soccer City, o estádio em forma de pote africano é de fazer cair o queixo. Manhã de conferências de imprensa e de entrevistas.

13h00 – Depois da opulência do Soccer City, a paisagem árida, pobre e desfeita do Soweto. Em meia dúzia de quilómetros mudámos de planeta.

13h30 – Instalado no Hotel Soweto, merecedor duma reportagem. Pela segunda vez, em 24 horas, sou aconselhado a não sair do hotel. Razões de segurança. O corredor de acesso ao quarto chama-se “Long Walk to Freedom”. É mesmo longo. Já a Freedom, desde que não saia do hotel…

22h30 – No clube Inc., de momento o lugar mais in  da noite de Joanesburgo.

25 de Julho

10h30 – Visita guiada ao Soweto. A paisagem continua desoladora. Ao contrário das pessoas, que continuam a ser do melhor que o mundo alguma vez pariu. A visita transforma-se na Volta ao Soweto em bicicleta. Há tesouros escondidos por aqui. É preciso trazê-los à tona. Rapidamente.

14h40 – Quase duas horas para fazer 40km entre Joanesburgo e Pretória. Estradas em obras, trânsito num oito. É sábado. Quem diria?

15h – Kaizer Chiefs contra Manchester City, na final do Vodacom Challenge. É a estreia de Adebayor, pelo City, no estádio Loftus Versfeld, que abre as porta ao futebol em vez do râguebi. Robinho, no banco. Santa Cruz de fora, Tévez também, lesionado. Sala de imprensa protegida por vidro. Sinto-me um peixe num aquário.

18h00 – Quem ganhou o torneio Vodacom? Os adeptos. Inigualáveis. Depois os Kaizer Chiefs (1-0), na final contra Manchester City, um clube cheio de dinheiro, mas sem futebol. Man. City rico. Pobre Man. City. Rico clube. Pobre futebol.

20h30 – Sakhumzi, restaurante de boa comida, servida numa tenda. Jantar buffet. Há apenas dois clientes brancos. Um deles sou eu. Chamam-me “nigga” e acrescentam – “were happy that you’re here”. Quando nos sentimos em casa, as respostas estão na ponta da língua. “I’m more happy than you that I’m here”. Acho que ganhei uma mesa cheia de amigos para a vida.

O dérbi do Soweto soube estar à altura de Nelson Mandela

Um jogo entre os Kaizer Chiefs e os Orlando Pirates é o equivalente a um Benfica-Sporting. Só que no lugar de Lisboa está o Soweto, o gigantesco bairro de dois milhões de habitantes, nos arredores de Joanesburgo. É um derby entre vizinhos, um confronto entre duas paixões antagónicas, mas como são os dois emblemas que mais adeptos arrastam na África do Sul, é toda uma nação futebolística que se divide por causa deste jogo.

A noite está desconfortável. Como são muitas (se não mesmo a maioria) das casas (ou devemos dizer barracas?) do pobre bairro do Soweto. Mas não deixa de ser uma noite especial. “A África do Sul é um país louco pelo futebol”, vinca Nicholas Kope, coordenador do departamento de desporto do campus do Soweto da Universidade de Joanesburgo.

O palco da partida entre os dois “grandes” do futebol sul-africano é no novíssimo Estádio Nelson Mandela, em Port Elizabeth. A cidade fica na província natal de Mandela, que viveu no bairro do Soweto, de onde vêm os dois clubes. Parece completar-se o círculo de coincidências. Só falta a bola a rolar no relvado. Uma vitória vale a presença na final de um torneio de pré-época. Jogo a feijões, jogo amigável? “Não há jogos amigáveis entre Chiefs e Pirates”, diz-nos Musa Sokhulo, adepto dos Pirates.

Ter bons estádios não chega

Visto de fora, o Estádio Nelson Mandela parece um naco de bolo com chocolate branco a escorrer de cima para os lados. Custou 99 milhões de euros, tem cinco pisos e 48 mil lugares de lotação máxima. Embora estivesse pronto, ficou fora do roteiro da Taça das Confederações porque, a um ano de distância dessa prova, que se realizou em Junho, a FIFA pensava que, devido aos atrasos, a obra não estaria concluída a tempo dessa prova. Só que, por ironia do destino, o atraso foi recuperado e o Estádio Mandela foi mesmo o primeiro dos dez do Mundial da África do Sul a ficar pronto. E embora já tivesse sido inaugurado em Junho, com uma partida que teve 35 mil pessoas na assistência, ainda lhe faltava receber um jogo “a sério”. Como este derby entre Pirates e Chiefs.

Vista interior do novo estádio Nelson Mandela

Mas não basta ter um estádio de classe mundial, como este. Convém saber o que fazer com ele. Coisa que a organização não sabe, a polícia também não, ao contrário dos dois rivais do Soweto, que cumpriram bem a sua missão.

À entrada, o patrocinador do torneio oferece vuvuzelas, as inevitáveis cornetas de plástico que, na África do Sul, são adereço obrigatório em dia de jogo. O mais difícil é, porém, chegar ao estádio, por causa do cordão policial montado em redor do recinto. Um autêntico garrote, absolutamente ineficaz. A confusão é total.

Todos os carros são revistados, tal como os passageiros, que são obrigados a sair dos veículos e enfiados numa cabina minúscula onde um segurança, dos seus sessenta anos, passa as mãos pelo corpo dos adeptos, ao calhas. Nem remotamente a cena se parece com medidas de segurança. Parece mais um mega-apalpanço.

“Isto é um ensaio”, declara um polícia interrogado pelo PÚBLICO, lembrando que o Estádio Mandela é um dos dez palcos do próximo Campeonato do Mundo de futebol. “Isto é um desastre”, comentam os jornalistas que tentam chegar à bancada de imprensa. A começar pelo trânsito, que está um caos. Mais por culpa da polícia do que dos adeptos, muitos dos quais se sentam nas bancadas já com o jogo a decorrer. No quinto piso, onde se situa a tribuna de imprensa, não há corrente para alimentar computadores portáteis.

Aos dez minutos, o primeiro golo, para a equipa de amarelo, os Kaizer Chiefs, cujos adeptos também são conhecidos por Amakhosi (lordes). Vinte minutos e diversas oportunidades desperdiçadas depois, os Pirates empatam.

Vuvuzelas para o Guinness

A loucura regressa ao relvado, desta vez pintada com as cores dos Pirates, preto e branco. E prossegue depois ao intervalo, num coro de 12.511 vuvuzelas, que se fazem ouvir em simultâneo. Um novo máximo para o Guinness, confirmado por um juiz do livro dos recordes, que veio de propósito de Londres para certificar o feito. Siga o futebol.

Depois de uma primeira parte de alto nível, seguiu-se uma segunda emocionante. Já ninguém se lembrava da chuva que caiu durante todo o dia, mas que parou uns minutitos antes do jogo começar.

Com o marcador empatado aos 90′, foi preciso recorrer aos pontapés da marca de grande penalidade. Em sete tentativas, os Amakhosi falharam três, contra quatro falhados pelos Pirates (ou Buccaneers). Foi uma chuva de penáltis atirados ao lado, por cima, à barra, ao poste. O que prolongou a emoção pela noite dentro. Assim que o vencedor foi encontrado, começou a chover. E, por momentos, a organização pareceu perfeita.

Nota: Reportagem originalmente publicada a 25 de Julho de 2009, na edição impressa do PÚBLICO. Confira aqui.

Eu descobri o Mundial 2010

Acabo de me sentar em frente ao computador mas não há pensamento algum na ponta dos meus dedos porque na cabeça martela um dilema enorme. Como descrever o que vivi na primeira noite em Port Elizabeth, na província do Cabo Leste? Como falar desta “mindblowing experience” (os Clã têm toda a razão, a língua inglesa fica sempre bem) sem cair no ridículo?

Numa obscura tasca de Port Elizabeth, os deuses enlouqueceram-me. Um jantar “braai” – um típico jantar xhosa (lê-se koza) – na Jeya’s Jazz Corner Tavern, transformou-se numa revelação. Foi nessa taverna de New Brighton Township que descobri o verdadeiro Mundial 2010.

Há cinco dias, aterrei na África do Sul com uma mala cheia de roupas e objectivos, disposto a andar muito e a dormir pouco. Queria visitar o maior número de locais, falar com o maior número de pessoas, e depois retransmitir, noticiar, reportar, sem nunca abdicar da santa objectividade. Se era isso que esperavam deste texto, parem já por aqui. Porque, desta vez, mandei a objectividade às malvas. Doutro modo, não vos poderia avisar que andamos todos enganados.

Em três penadas, doze miúdos mais as suas danças xhoza deram cabo de todas as minhas certezas. Mostraram-me que o Mundial de futebol não se faz de futebol. Nem de estatísticas, de estádios, de vuvuzelas e afins. Fizeram-me pensar que deveria chegar aqui ao quarto de hotel, pegar no computador, ligar-me à net e abrir uma petição online para exigir aos todo-poderosos do futebol que, a partir de agora, todos os Mundiais sejam em África.

Esses miúdos (que dão pelo nome de Mojo Entertainment), com as suas danças, revelaram-me que eu vinha à procura das coisas erradas. Num Mundial, o futebol é apenas uma desculpa, “a bad excuse”. Poderia tentar explicar-vos com vídeos e fotografias. Mas, aí sim, cairia no ridículo. Seria tentar descrever, com zeros e uns, uma vivência que uns têm a sorte de encontrar e outros o azar de prescindir.

Procurem a dança africana, procurem os Mojo Entertainment. Façam um favor a vós próprios, à vossa família, ao mundo. E estou certo que ficarão assim como eu, um pouco mais ridículos. Mais humanos. Como o futebol deveria ser. Como vai ser este Mundial.

Nota: texto originalmente publicado às 9h39


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