Pretória, cidade do râguebi, está pronta para ajudar o irmão futebol

Linha do horizonte de Pretória, vista do estádio Loftus Versfeld, ao entardecer

Pretória. O guia “Lonely Planet” chama-lhe a “Jerusalém afrikaner”. Mas isso é passado. Uma tarde de domingo com futebol revela uma realidade bem diferente. Mesmo que o jogo seja num estádio de râguebi, o desporto dos brancos, a capital de facto do país está mais que preparada para ocupar um lugar central no universo do futebol. Desde que se consiga chegar lá.

Num lado do campo, o Manchester City, emblema inglês, talvez o clube mais rico do mundo graças ao proprietário (um xeque do Dubai), equipa cheia de estrelas, futebol globalizado. Na outra metade, o Kaizer Chiefs, emblema zulu, talvez o clube com mais adeptos no país, o Benfica da África do Sul, propriedade de um dos fundadores da Premier Soccer League sul africana, que não ganha um título desde 2004/2005, plantel sem vedetas e futebol tipicamente africano – muito saboroso, mas quantidades erradas de alguns ingredientes.

Seria fácil olhar para a final do Vodacom Challenge como uma batalha entre ricos e pobres, brancos e negros. Sobretudo quando o jogo é em Pretória, antigo símbolo do domínio “afrikaner”, porque a cidade tem muita fachada desse tempo, muita história do apartheid. Mas quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos e o Man. City não tem nada a ver com aquilo.

Que nos perdoem os adeptos da equipa, mas o vizinho do United não é a potência beligerante que parece. Sem as suas vedetas, ou até mesmo com a nova jóia, Adebayor, a equipa do xeque Mansour bin Zayed Al Nahyan, tem mais a ver com a “cidade dos jacarandás”, o outro nome de Pretória. Os pupilos de Marg Hughes, treinador do City, ainda não arranjaram melhor fato do que um floreado desbotado, semelhante ao que destapa a capital administrativa da África do Sul veste nestes meses de Inverno. Duas derrotas em três jogos abanaram os ramos do “onze” inglês, mas os adeptos não se preocupam muito estando convencidos de que a seu tempo as vitórias desabrocharão.

estátua alusiva ao râguebi no exterior do estádio Loftus Versfeld

No estádio Loftus Versfeld, que está mais habituado à energia e força do râguebi, o que se viu não foi, portanto, um David a derrotar Golias porque, no fundo, Chiefs e “citizens” foram do mesmo tamanho. Maiores que eles, só Pretória, cujo lema poderia ser “Somos iguais”, se essa questão não estivesse a ser decidida nos corredores do poder, por onde anda perdida uma proposta de alteração do nome de Pretória para Tshwane, palavra oriunda do povo Ndebele e que já dá nome à área metropolitana.

Apesar do triunfo na final (1-0), a equipa que é propriedade de um dos fundadores da Premier Soccer League, Kaizer Moateng, não foi superior à outra equipa africana que entrou no torneio. Orlando Pirates, a outra grande equipa do Soweto, e grande rival dos Chiefs, foi superior. Somou um triunfo e um empate nos 180 minutos dos dois jogos de apuramento, melhor que um empate e uma derrota dos Amakhosi (líderes, em zulu). Os bucanneers apenas perderam o acesso à final porque as regras determinam que o convidado internacional, neste caso o Manchester City, tem sempre lugar garantido, e porque no jogo decisivo, falhou mais penáltis que a equipa dos Chiefs.

O triunfo do patinho feio sul-africano sobre o cisne inglês parece assim um agradecimento, alguém a dizer obrigado, Siyabonga, em zulu. Obrigado por teres abraçado toda a gente, Pretória. Tu sabes bem que não se julga um livro pela sua capa.

Pela mesma razão, não se pode dizer que uma tarde de futebol num estádio de râguebi, como é o caso do Loftus Versfeld, tenha um sabor diferente. Pode dar a ideia de que estamos a desrespeitar a ordem dos pratos numa refeição, comendo pap e salsichas “boerewoms” (à lavrador) à sobremesa. Mas é uma questão psicológica. Quando a bola entra na baliza, toda a gente sabe a que desporto está a assistir.

Vista exterior do estádio Loftus Versfeld

Vista interior do estádio Loftus Versfeld

Vista interior do estádio Loftus Versfeld

 

Localizada a 50km de Joanesburgo (Joburg ou Jozi, para os amigos), Pretória é a capital administrativa do país. O estádio Loftus Versfeld, que tem o nome do fundador do desporto organizado em Pretória (Robert Owen Loftus Versfeld) tem quase 52 mil lugares e já foi utilizado na Taça das Confederações, em Junho, que funcionou como ensaio geral do Mundial 2010.

A ligação rápida ferroviária entre Pretória e Joanesburgo, o chamado Gautrain, só estará pronta em 2011, depois do Mundial. A grande aposta vai, por isso, para o melhoramento das estradas. No sábado, a viagem demorou quase três horas, porque a principal ligação rodoviária entre Pretória e Joburg está em obras por todo o lado. Com o estádio, que é antigo, já remodelado, Pretória precisa apenas de apressar a conclusão das empreitadas em curso e cuidar do que tem. Se o conseguir, a cidade que originalmente se chamou “Pretória Philadelphia” (“Pretória do amor fraterno”) não apresentará grandes problemas, pois hoje já parece preparada.

Links úteis sobre Pretória:

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