O dérbi do Soweto soube estar à altura de Nelson Mandela

Um jogo entre os Kaizer Chiefs e os Orlando Pirates é o equivalente a um Benfica-Sporting. Só que no lugar de Lisboa está o Soweto, o gigantesco bairro de dois milhões de habitantes, nos arredores de Joanesburgo. É um derby entre vizinhos, um confronto entre duas paixões antagónicas, mas como são os dois emblemas que mais adeptos arrastam na África do Sul, é toda uma nação futebolística que se divide por causa deste jogo.

A noite está desconfortável. Como são muitas (se não mesmo a maioria) das casas (ou devemos dizer barracas?) do pobre bairro do Soweto. Mas não deixa de ser uma noite especial. “A África do Sul é um país louco pelo futebol”, vinca Nicholas Kope, coordenador do departamento de desporto do campus do Soweto da Universidade de Joanesburgo.

O palco da partida entre os dois “grandes” do futebol sul-africano é no novíssimo Estádio Nelson Mandela, em Port Elizabeth. A cidade fica na província natal de Mandela, que viveu no bairro do Soweto, de onde vêm os dois clubes. Parece completar-se o círculo de coincidências. Só falta a bola a rolar no relvado. Uma vitória vale a presença na final de um torneio de pré-época. Jogo a feijões, jogo amigável? “Não há jogos amigáveis entre Chiefs e Pirates”, diz-nos Musa Sokhulo, adepto dos Pirates.

Ter bons estádios não chega

Visto de fora, o Estádio Nelson Mandela parece um naco de bolo com chocolate branco a escorrer de cima para os lados. Custou 99 milhões de euros, tem cinco pisos e 48 mil lugares de lotação máxima. Embora estivesse pronto, ficou fora do roteiro da Taça das Confederações porque, a um ano de distância dessa prova, que se realizou em Junho, a FIFA pensava que, devido aos atrasos, a obra não estaria concluída a tempo dessa prova. Só que, por ironia do destino, o atraso foi recuperado e o Estádio Mandela foi mesmo o primeiro dos dez do Mundial da África do Sul a ficar pronto. E embora já tivesse sido inaugurado em Junho, com uma partida que teve 35 mil pessoas na assistência, ainda lhe faltava receber um jogo “a sério”. Como este derby entre Pirates e Chiefs.

Vista interior do novo estádio Nelson Mandela

Mas não basta ter um estádio de classe mundial, como este. Convém saber o que fazer com ele. Coisa que a organização não sabe, a polícia também não, ao contrário dos dois rivais do Soweto, que cumpriram bem a sua missão.

À entrada, o patrocinador do torneio oferece vuvuzelas, as inevitáveis cornetas de plástico que, na África do Sul, são adereço obrigatório em dia de jogo. O mais difícil é, porém, chegar ao estádio, por causa do cordão policial montado em redor do recinto. Um autêntico garrote, absolutamente ineficaz. A confusão é total.

Todos os carros são revistados, tal como os passageiros, que são obrigados a sair dos veículos e enfiados numa cabina minúscula onde um segurança, dos seus sessenta anos, passa as mãos pelo corpo dos adeptos, ao calhas. Nem remotamente a cena se parece com medidas de segurança. Parece mais um mega-apalpanço.

“Isto é um ensaio”, declara um polícia interrogado pelo PÚBLICO, lembrando que o Estádio Mandela é um dos dez palcos do próximo Campeonato do Mundo de futebol. “Isto é um desastre”, comentam os jornalistas que tentam chegar à bancada de imprensa. A começar pelo trânsito, que está um caos. Mais por culpa da polícia do que dos adeptos, muitos dos quais se sentam nas bancadas já com o jogo a decorrer. No quinto piso, onde se situa a tribuna de imprensa, não há corrente para alimentar computadores portáteis.

Aos dez minutos, o primeiro golo, para a equipa de amarelo, os Kaizer Chiefs, cujos adeptos também são conhecidos por Amakhosi (lordes). Vinte minutos e diversas oportunidades desperdiçadas depois, os Pirates empatam.

Vuvuzelas para o Guinness

A loucura regressa ao relvado, desta vez pintada com as cores dos Pirates, preto e branco. E prossegue depois ao intervalo, num coro de 12.511 vuvuzelas, que se fazem ouvir em simultâneo. Um novo máximo para o Guinness, confirmado por um juiz do livro dos recordes, que veio de propósito de Londres para certificar o feito. Siga o futebol.

Depois de uma primeira parte de alto nível, seguiu-se uma segunda emocionante. Já ninguém se lembrava da chuva que caiu durante todo o dia, mas que parou uns minutitos antes do jogo começar.

Com o marcador empatado aos 90′, foi preciso recorrer aos pontapés da marca de grande penalidade. Em sete tentativas, os Amakhosi falharam três, contra quatro falhados pelos Pirates (ou Buccaneers). Foi uma chuva de penáltis atirados ao lado, por cima, à barra, ao poste. O que prolongou a emoção pela noite dentro. Assim que o vencedor foi encontrado, começou a chover. E, por momentos, a organização pareceu perfeita.

Nota: Reportagem originalmente publicada a 25 de Julho de 2009, na edição impressa do PÚBLICO. Confira aqui.

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