Durban, o “jackpot” do Mundial 2010

Fernando Pessoa viveu uns dez anos em Durban. Teria sido o melhor guia para uma viagem à maior cidade da província de Kwazulu-Natal, não se desse o caso de a sua obra ter esquecido Durban por completo. E como já alguém escreveu, a cidade pagou-lhe na mesma moeda. O que não é bem verdade. Na esquina das ruas Pine e Gardiner, lá está ele, Fernando Pessoa, imortalizado através de um busto, ali colocado em 1985, nos 50 anos da morte do autor de “A Mensagem”.

Seja como for, seria difícil deixarmo-nos guiar em Durban pela mão do escritor. Porque, exceptuando meia dúzia de coisas, Durban é como Pessoa escreveu (e não estava a pensar na cidade) – “Quem ontem fui já hoje em mim não vive”.

Crianças da tribo zulu, à entrada do Parque Hluhluwe, maravilha da natureza a três horas de Durban

Crianças da tribo zulu, à entrada do Parque Hluhluwe, maravilha da natureza a três horas de Durban

Mantém-se o Oceano Índico, a forte presença asiática, o clima subtropical, o grande porto (o maior do continente africano) que Pessoa também terá encontrado.  O nome que Vasco da Gama deu a Durban passou entretanto para a província. O navegador português chegou lá num dia de Natal. Seiscentos anos depois, essa memória sobrevive no nome da província que Durban integra, Kwazulu-Natal, terra do povo zulu.

Com 3,5 milhões de habitantes, Durban é a terceira cidade mais populosa da África do Sul. O clima e as praias banhadas pelo Oceano Índico são musas inspiradoras de um turismo massivo que prontamente se entrega aos outros encantos que ali se descobrem de dez em dez passos. Crime? Sim, como em todo o lado. Medo? Não mais do que aquele que sentimos quando entramos num avião que sabemos que pode cair se alguma coisa correr mal.

É melhor não irmos por aí, porque é grande o risco de cairmos no alarmismo, de repetirmos preconceitos baseadas em ideias feitas, como o fez Louise Taylor, recentemente, no jornal Guardian, num texto díficil de digerir e que tem circulado com raiva entre as caixas de correio electrónico dos sul-africanos com acesso à Internet. Por aqui, limitamo-nos a lembrar que os factos são conhecidos – os níveis de criminalidade são elevados e uma das preocupações das autoridades e dos cidadãos – e repetir o aviso: uma cidade como Durban pode ser um delícia ou um murro no estômago (ou até pior que um soco).

Inevitavelmente, Durban terá de exibir as suas qualidades e defeitos como uma das dez cidades anfitriãs do próximo Mundial de futebol. Como se imagina, a azáfama da preparação do torneio é grande, tanto na cidade como ao seu redor. E quando se diz redor, é preciso ter em conta que a grandeza é proporcional à medida de um país de 49 milhões de habitantes e que tem uma área maior do que a soma das áreas de Espanha e da França.

A indústria do futebol, no ventre comunista

Com esta realidade em pano de fundo, a grande âncora da nação zulu não podia, nem devia, faltar ao roteiro que a Federação Internacional de Futebol (FIFA) encomendou à África do Sul. E se tomarmos como verdadeira a ideia de que a FIFA é o grande mercenário do futebol, a mão dura, hirta e invisível que existe para garantir lucro máximo, então concluir-se-ia que a resposta de Durban é, no mínimo, humorada. Porque a jóia da coroa que a cidade vai exibir no Mundial de futebol tem o nome de um… líder comunista. O imponente estádio que está em construção e que, mesmo inacabado é já um ícone da cidade, tem o nome de Moses Mabhida (n. 1923). É no seu ventre que a indústria do futebol se mostrará ao mais alto nível.

A ideia inicial era a de baptizar o recinto com o nome do Rei Senzangakhona, mas em 2007, o município local decidiu dar-lhe o nome de um antigo líder do Partido Comunista da África do Sul. Moses Mabhida foi secretário-geral daquela força política entre 1978 e 1986, ano em que faleceu em Moçambique, onde viveu no exílio.
Projectado por arquitectos alemães e sul-africanos, o estádio situa-se no Kings Park Sporting Precinct, uma área recheada de infra-estruturas desportivas. Com lotação para 70 mil pessoas durante o Mundial 2010 (após o torneio terá 54 mil lugares permanentes), distingue-se por um monumental arco que, na verdade são dois, e atinge os 106 metros de altura no seu ponto máximo, tendo a forma de um Y, o que remete para uma das formas geométricas visíveis na bandeira sul-africana. É esse arco, feito na Alemanha, que permite ao estádio Moses Mabhida diferenciar-se e intrometer-se na luta dos abundantes arranha-céus de Durban.
Vista sul do estádio Moses Mabhida, em Durban

Vista sul do estádio Moses Mabhida, em Durban

A construção começou em Outubro de 2006, com a demolição do antigo estádio que existia no mesmo local. A conclusão está prevista para Outubro deste ano, mas aquilo que está à vista deixa qualquer um desconfiado. Será possível finalizar em três meses? A pessoa que recebe os visitantes no estádio – há visitas guiadas às obras na última sexta-feira de cada mês –, uma senhora  dos seus 60 anos, cabelo coberto por um enorme lenço azul, saia longa de balão e t-shirt com o ano 2010 estampado nas costas, acredita que é possível. Se lhe perguntarem pelo nome dela, ela dirá que é a “Mamã 2010”.

A obra é imponente e percebe-se facilmente a razão porque o projecto enche os habitantes de orgulho. Claro que há o outro lado da moeda – e considerá-la implica fazer a pergunta que suscita uns quantos encolher de ombros como resposta: era mesmo necessário construí-lo quando, uns metros ao lado, há o estádio Kings Park, que tem mais de 30 mil lugares e, aparentemente, teria todas as condições para, com pequenas reformulações, preencher as necessidades do Mundial do próximo ano?

Para os responsáveis locais que não fogem à questão, a resposta é sim. Sobretudo porque o Kings Park é o local do râguebi e “o futebol merece um estádio próprio”.

Ao lado do novo estádio fica o Kings Park. Este é mais usado pelo râguebi, mas também recebe futebol, como na terça à noite, quando o Manchester City bateu (1-0) os Kaizer Chiefs, na segunda ronda do torneio Vodacom

Ao lado do novo estádio fica o Kings Park. Este é mais usado pelo râguebi, mas também recebe futebol, como na terça à noite, quando o Manchester City bateu (1-0) os Kaizer Chiefs, na segunda ronda do torneio Vodacom

Aceitar este argumento não implica meter na gaveta outras reservas. O arco no Moses Mabhida tanto pode ser encarado como uma bela peça de arquitectura ou como uma megalomania. Basicamente, é uma estrutura em aço, oca, com cinco por cinco metros de espaço dentro, constituída por 56 peças independentes cuja colocação terminou em 2008. Mede 350 metros de comprimento, e pode ser percorrido de um lado ao outro.

Do lado sul, tem 550 degraus, para subir e descer a pé, enquanto que do lado norte vai dispor de uma espécie de funicular transparente, construído na Suíça, com capacidade máxima para 25 pessoas. Do topo, tem-se uma vista de 360º de Durban, logo, será uma enorme atracção turística. Além disso, um dos acessos ao recinto é um túnel que liga directamente à praia, sendo que, do lado oposto, está em construção uma nova estação ferroviária, essa sim, aparentemente bastante atrasada.

O mesmo se pode concluir em relação ao novo aeroporto internacional de Durban, que levanta algumas dúvidas tanto em relação ao prazo de conclusão como no que diz respeito à sua necessidade. A verdade é que a actual aerogare já foi parcialmente vendida à construtora nipónica de automóveis Toyota, a maior com presença na África do Sul e, por essa razão, a única solução de Durban é ter a nova infra-estrutura pronta a tempo do Mundial.

O que fazer para além do futebol

Apesar de todas as questões que se possam levantar neste momento, uma coisa é certa. Cumprindo os projectos em carteira, Durban é o verdadeiro “jackpot” do Mundial 2010. As equipas e adeptos que tiverem de passar por ali, serão os mais sortudos. Porque terão à sua espera dias soalheiros e quentes, mesmo no Inverno, uma cidade totalmente preparada para o turismo, recheada de vida comercial, animação cultural e nocturna, acariciada pelas águas temperadas do Índico e com um leque diversificado (em quantidade e qualidade) de oferta hoteleira. Bares, discotecas, restaurantes, casinos, aquários gigantes, parques de diversão para os mais novos, não falta nada à grande cidade zulu que tem a maior presença de indianos e paquistaneses na África do Sul.

Além disso, há que contar com toda a restante oferta extra-futebol da própria região de Kwazulu-Natal. A província é conhecida pelo seu esforço de conservação ambiental, estando repleta de importantes reservas de caça, nenhuma delas a mais do que três horas de distância, de carro.

Hipopótamos em Saint Lucia, onde se encontra o maior estuário do continente africano

No norte situam-se o parque de Hluhluwe/Umfolozi e o Isimangaliso (Saint Lucia Wetlands), ambos património mundial. Em Saint Lucia, é possível fazer viagens de barco no maior estuário africano, em busca de crocodilos, hipopótamos, outros animais e espécies vegetais. Indo rumo ao interior, encontra-se o parque uKhalamba Drakensberg, também classificado como património da Humanidade pela Unesco. Na zona consteira, milhares de pessoas deixam-se conquistar durante os meses em que vai decorrer o Mundial de futebol (Junho e Julho), com a corrida às sardinhas. Trata-se de um fenómeno natural, que ocorre sobretudo na Costa Sul de Durban.

Chegar lá será fácil. Em transporte privado ou público, há diversas alternativas, incluindo rodoviária, ferroviária e aérea. Desde Joanesburgo, são 590km por auto-estrada, ou uma hora de avião. Desde a Cidade do Cabo, são quase 1800km de distância, coisa pouca para uma tranquila viagem de avião (há oferta “low cost”) ou uma promessa de uma aventura inesquecível de três/quatro dias para quem preferir viajar de carro entre estas duas metrópoles.

Informações e links úteis sobre Durban:

Anúncios

0 Responses to “Durban, o “jackpot” do Mundial 2010”



  1. Deixe um Comentário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Blogue

subscrever RSS A Vuvuzela é uma corneta, que servia para convocar pessoas, e que é muito popular nos estádios de futebol da África do Sul.

Inquérito

Subscrever newsletter Clique aqui ou no envelope se prefere receber os textos na sua caixa e correio.

RSS Última hora: PÚBLICO Desporto

  • Ocorreu um erro; é provável que o feed esteja indisponível. Tente novamente mais tarde.

RSS Mundial 2010 @ FIFA.com

  • Madjer takes charge of Algeria Outubro 19, 2017
  • Sigurdsson: Iceland can progress to Russia 2018 knockout stages Outubro 19, 2017
  • Video Vault: Simonyan's Sweden 1958 journey Outubro 19, 2017
  • Barbarouses a key element in New Zealand’s new breed Outubro 18, 2017
  • Europe’s eight play-off contenders in numbers Outubro 17, 2017

Infografia

Infografia
Onde ficam os estádios do Mundial 2010 e por onde andou o PÚBLICO. Clique aqui

Twitter

Contas no twitter

@vuvuzela2010

@vferreira


%d bloggers like this: