Série Os Melhores Futebolistas de África: George Weah foi o melhor do mundo sem ter uma pátria

Ponto prévio: A viagem à África do Sul dá o mote a uma série de posts sobre grandes jogadores oriundos de África. Ouvi opiniões de colegas jonalistas do PÚBLICO e alguns dos que nos acompanham nesta viagem (entre eles ingleses, quenianos, moçambicanos, chineses, botsuanos e sul-africanos). A caixa de comentários está aberta a sugestões.

Trezentos e quarenta e cinco jogos oficiais, 135 golos. É fácil resumir em dois números a carreira daquele que terá sido o maior futebolista do continente africano, em jogos a contar para os campeonatos por onde passou. Mas a vida de George Tawlon Manneh Oppong Ousman Weah, dentro e fora do relvado, não se pode resumir a dois números. Eleito melhor futebolista do mundo em 1995, pela FIFA, George Weah (n. 1966) nunca teve um país. Quer dizer, teve, mas a guerra constante na Libéria, sobretudo a guerra civil que matou mais de 200 mil pessoas entre 1989 e 1996, fez com que fosse como se Weah não tivesse pátria. Não admira que, depois de ter feito o que nenhum outro africano conseguiu no futebol, tenha pendurado as botas e enveredado pela política para tentar aquilo que nenhum liberiano conseguira: trazer a paz à Libéria.

O caos do seu país natal contribuiu para aquela que é a única lacuna de peso do seu extenso currículo, recheado de sucessos – nunca esteve num Mundial de futebol. Poderia tê-lo conseguido no Mundial 2002, mas a Libéria ficou a um ponto da qualificação. Poderia talvez ter optado por outra nacionalidade, mas Weah, filho de gente pobre, nascido num subúrbio pobre de Monróvia, não quis abdicar nos relvados daquilo que, após se ter reformado, o tem feito correr – um certo amor a um naco de terra africana, que pouco ou nada tem dado aos seus filhos.

A estreia de Weah aconteceu quando tinha 15 anos. Passou mais sete em equipas africanas, mas depois, um treinador francês, um tal de Arsène Wenger, na altura técnico do Mónaco, decidiu ir buscá-lo. Se houve um dia em que Wenger teve razão, foi esse dia de 1988 em que o contrato foi assinado. Três anos depois, levantou o seu primeiro título europeu, a Taça de França, transferindo-se em 1992 para o Paris Saint-Germain, por quem se sagrou campeão francês, em 1994. Com 32 golos em 96 encontros, Weah atraiu a atenção do AC Milan, qe iria buscá-lo a França, proporcionando-lhe os melhores cinco anos da sua carreira. Neste período, ganhou dois títulos italianos, foi eleito melhor jogador do mundo e melhor marcador da Liga dos Campeões, na época de 1994-1995. Os “rossoneri” foram à final, mas o título calhou ao Ajax nesse ano.

Três vezes eleito melhor jogador africano, acabaria por ser o preferido de jornalistas de desporto de todo o mundo, que o elegeram, em 1998, o melhor futebolista africano do século XX. Ficava assim à altura de Pelé, que mereceu idêntica distinção para a América do Sul, e de Johan Cruijff, eleito o jogador europeu do século.

Autor de golos inesquecíveis, era possante, mas cheio de técnica. A bola estava para o seu pé como uma cadela amestrada para o dono. Velocidade, astúcia, sentido de oportunidade, era um avançado temível, capaz de aproveitar a oportunidade mais ténue e de criar situações de golo a partir do nada.

<b>Partiu o nariz de Jorge Costa… e ganhou o prémio fair play</b>

Como avançado fora de série, espalhou a miséria pelas defesas contrárias. E um central em particular, o português Jorge Costa, na altura no FC Porto, não deve guardar recordações muito felizes do liberiano que antes de deixar o seu aís natal, com 20 anos, ainda chegou a ser funcionário de uma companhia de telefones

Isto porque os dois envolveram-se numa cena de pancadaria no túnel de San Siro, depois de um empate entre aquelas duas equipas, a 20 de Novembro de 1996. Weah partiu o nariz de Jorge Costa, tendo-o acusado de insultos racistas. O liberiano foi castigado com seis jogos de suspensão, ao passo que o central dos “dragões” teve de ser sujeito a uma intervenção cirúrgica que o obrigou a três semanas de paragem. Estranhamente (ou não), nesse mesmo ano, a UEFA atribuiu a Weah o prémio fair play…

Depois de Itália, ainda passou por Inglaterra (Chelsea e Manchester City), voltou a França (Marselha) e terminou a carreira no Al-Jazira, dos Emirados Árabes Unidos. Em 2003 reformou-se. Enveredou, então, pela política, tendo concorrido em 2005 às eleições presidenciais que se seguiram à segunda guerra civil da Libéria (finda em 2003). Acabou por desistir dessa candidatura, mas continua a ser um activista.

É Embaixador da ONU desde 1997, gere projectos de desenvolvimento baseados no futebol, tentando ajudar crianças pobres. Apesar de ter acumulado salários milionários à época, Weah sabia bem qual é o sabor da pobreza. Talvez tenha também sido por isso que pagou do seu bolso a participação da sua selecção no Campeonato Africano de Nações, em 1996, a primeira prova internacional em que a Libéria participou após a primeira guerra civil.

Alguns dos golos e jogadas memoráveis de George Weah, via Youtube.

 

Anúncios

1 Response to “Série Os Melhores Futebolistas de África: George Weah foi o melhor do mundo sem ter uma pátria”


  1. 1 O do Costume Julho 21, 2009 às 8:23 am

    Pois é, o Jorge Costa é um sofredor, coitadinho. Näo foi ele que deu uma cotovelada ao Weah anteriormente em pleno jogo que o pös (ao Weah) KO?
    Mas vá lá vá lá, que o Jorge era caceteiro mas raçudo, pelo menos a seguir fazia na Selecçäo o mesmo que no fêcêpê, ao passo que muitos (a começar pelo Rui Barros e a acabar no Cronaldo) só jogam nas respectivas equipas, chegam à da camisola das quinas e “perdem-se”…


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




Blogue

subscrever RSS A Vuvuzela é uma corneta, que servia para convocar pessoas, e que é muito popular nos estádios de futebol da África do Sul.

Inquérito

Subscrever newsletter Clique aqui ou no envelope se prefere receber os textos na sua caixa e correio.

RSS Última hora: PÚBLICO Desporto

  • Ocorreu um erro; é provável que o feed esteja indisponível. Tente novamente mais tarde.

RSS Mundial 2010 @ FIFA.com

  • Madjer takes charge of Algeria Outubro 19, 2017
  • Sigurdsson: Iceland can progress to Russia 2018 knockout stages Outubro 19, 2017
  • Video Vault: Simonyan's Sweden 1958 journey Outubro 19, 2017
  • Barbarouses a key element in New Zealand’s new breed Outubro 18, 2017
  • Europe’s eight play-off contenders in numbers Outubro 17, 2017

Infografia

Infografia
Onde ficam os estádios do Mundial 2010 e por onde andou o PÚBLICO. Clique aqui

Twitter

Contas no twitter

@vuvuzela2010

@vferreira


%d bloggers like this: