Polokwane: plana, segura, mas com muito trabalho pela frente

O estádio Peter Mokaba vai ser palco de quatro encontros do próximo campeonato do Mundo de futebol, em 2010, na África do Sul. Para quem é de fora, a escolha do nome do estádio pode parecer um contrasenso. Mas esse não deve ser o problema que preocupe o município, que tem muito trabalho pela frente, se quiser responder às expectativas da FIFA e dos adeptos que vão aparecer no próximo ano.

Peter Mokaba (n. 1959) foi dirigente do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla inglesa), lutador contra o apartheid. Presidiu à organização juvenil do ANC, era um conhecido activista e chegou a ministro-adjunto no tempo da presidência de Nelson Mandela, com a tutela das pastas do Ambiente e do Turismo. Alguns obituários publicados aquando da sua morte, em 2002, relembraram o facto de ter sido ele o primeiro a proferir em público o incitamento “Matem os boers, matem os fazendeiros”(“Kill the boers, kill the farmers”). Além disso, foi um negacionista em matéria de HIV, isto é, Mokaba inseria-se na corrente de opinião que negava a existência de qualquer ligação entre o vírus da imunodeficiência humana e o Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA).

Para um leigo distante da complexidade política que é a África do Sul, do seu intrincado tecido sócio-cultural, estas duas ideias podem soar a afrontas. A primeira porque é precisamente o contrário do que Nelson Mandela defendeu veementemente durante a sua luta contra o apartheid, ao passo que a segunda porque vai contra o senso comum cimentado em cima do conhecimento científico que qualquer jornal ou televisão vem, há muito tempo, divulgando.

Infame ou não, Mokaba nunca foi esquecido pela sua cidade natal, Polokwane, a capital da província nortenha do Limpopo. É o nome dele que consta numa das bancadas do estádio de 18 mil lugares actualmente existente e é com ele que vão baptizar o novo recinto que está a nascer mesmo ao lado do estádio actual.

Enquanto o novo não fica pronto – as autoridades prevêem a conclusão para o fim deste ano –, o estádio antigo continua a ser o palco privilegiado das grandes partidas de futebol em Polokwane. No início deste século, a cidade tinha 302 mil habitantes, sendo 91 por cento negros. E são sobretudo estes que enchem o estádio Peter Mokaba, quando há grandes partidas em vista.

Momento do jogo entre Pirates e City, que terminou com a vitória (2-0) dos sul-africanos

Momento do jogo entre Pirates e City, que terminou com a vitória (2-0) dos sul-africanos

No sábado, cerca de 15 mil pessoas preencheram as bancadas, numa tarde que acabou por se tornar histórica. O jogo opunha os Orlando Pirates à equipa convidada da edição 2009 do torneio Vodacom Challenge, o Manchester City. Nunca uma equipa inglesa havia perdido qualquer jogo com um adversário sul-africano nesta prova (Tottenham e Manchester United, por duas vezes, já passaram por ali). O pior dos ingleses foi um empate, na final de 2006, do United, que acabaria mesmo por perder o troféu no desempate por pontapés da marca de grande penalidade (4-3).

Só que o treinador do City, Mark Hughes, decidiu que ainda não era chegada a hora de pôr em campo os reforços que a carteira milionária do novo dono do clube garantiu para a próxima época. Nem Carlos Tevez, nem Roque Santa Cruz, nem praticamente nenhum dos habituais titulares foram chamados a suar a camisola. Hughes deixou 150 milhões de libras sentadas no banco e chamou apenas dois titulares habituais. Caicedo, o avançado equatoriano de 20 anos que tem sido dado como alvo do Sporting, entrou na segunda parte, mas apesar do seu físico imponente, foi o espelho de uma equipa apagada e aparentemente pouco interessada em contribuir com algum colorido para uma tarde que foi festa pura e dura.

Acabou por ganhar a equipa dos Pirates, por 2-0. Porque jogou contra as reservas do City? Não. Porque foi a única a jogar futebol… No dia de aniversário de Nelson Mandela, o “tata” (pai) da nação sul-africana, este resultado foi a cereja em cima do bolo de aniversário do torneio, que regista este ano a sua 10.ª edição. A partida foi o momento mais quente do dia, que registou temperaturas de zero graus centígrados, à hora de jantar (um aviso para quem quiser visitar o local em Julho de 2010).

Aeroporto novo, mas pequeno

Mas uma coisa é a festa do futebol no relvado de Polokwane e outra coisa é o muito trabalho que a cidade tem nitidamente pela frente, para que possa responder cabalmente às exigências de quatro partidas de um torneio da dimensão dum Mundial.

 No tempo do domínio “boer”, a cidade chamava-se Pietersburg, designação que permanece bem visível em muitas placas indicadoras de sentido que se encontra nas estradas. Praticamente plana, situada a quase 1300 metros de altitude, Polokwane tem um aeroporto novo, inaugurado em 2008, que fica a uns 15 minutos de carro do centro da cidade. 

Vista da entrada do aeroporto internacional de Polokwane

Vista da entrada do aeroporto internacional de Polokwane

Apesar de se designar de internacional, não apresenta nesta altura condições para, digamos, receber os milhares de adeptos que selecções como Inglaterra ou Alemanha arrastam atrás de si. Será preciso planificar muito bem, para não provocar engarrafamentos e pôr em causa todo o esforço organizativo.

As instalações são exíguas, há poucos balcões para “check in” e áreas para controlo de segurança – no dia em que viemos embora, domingo, aconteceu até a situação ridícula de o controlo de “raio x” não funcionar, pelo que foi necessário revistar a bagagem de mão de cada um dos passageiros. Agora imaginem 15 mil alemães ou 15 mil ingleses nestas condições…

O vôo entre Polokwane e Joanesburgo, com a companhia South Africa Airlines, dura uma hora, num Jetstreamer 41, no qual cabem umas 20 pessoas. Uma boa alternativa, para quem chegar ao país via aeroporto de Joanesburgo e tiver de se deslocar para norte, é alugar um carro. O percurso pode ser feito todo por auto-estrada, em três ou quatro horas, e não vale a pena pensar nos riscos que uma viagem dessas pode representar. As condições rodoviárias são boas – pelo menos nesta altura – e quanto ao tão propalado crime, diz o município de Polokwane que “toda a região do Limpopo é a mais segura do país, apesar de ter um dos piores rácios de efectivos policiais por habitante“.

Outra questão que pode representar um problema é a escolha do local de dormida. Tudo vai depender das equipas que vão jogar no novíssimo estádio Peter Mokaba, com capacidade para 46 mil lugares (consulte a infografia).

Se houver confrontos entre favoritos ao título mundial, ou selecções que sejam seguidas por muitos adeptos, talvez seja recomendável tratar dessa questão com a maior antecedência possível, talvez contactando um agente de viagens local, os responsáveis pelo Turismo local e regional ou até o próprio instituto de Turismo da África do Sul.

Informações e links úteis  a propósito de Polokwane

 

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